Resumo: Mais além de um conjunto de crises financeiras e energéticas, as últimas décadas
têm sido marcadas por profundas transformações nos sistemas alimentares. O avanço das
políticas neoliberais a partir da década de 1980, ao passo que impôs maior abertura comercial aos países da periferia do sistema internacional, viabilizou uma maior integração, centralização e concentração das cadeias de commodities ligadas à agroindústria, refletindo, para alguns teóricos, a emergência de um novo regime alimentar – baseado no poder das finanças e do capital transnacional do agronegócio. Neste contexto, o poder acumulado por corporações e fortalecido no apoio de seus aliados – Estados centrais, organismos financeiros internacionais e agências especializadas – traduz-se na busca por espaços e na disputa pelo avanço e legitimação de uma agenda própria de governança global da agricultura e da alimentação, tendo como alvos preferencias instâncias estratégicas, como as Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Este cenário ganha contornos interessantes diante de fatores como a ascensão chinesa e suas estratégias de segurança alimentar; ou mediante a urgência da crise climática, para a qual os atores corporativos têm respondido com a adoção de mecanismos oportunistas e instrumentos “verdes” de remediação. Além disso, a conformação dos sistemas agroalimentares em favor do paradigma da agricultura de larga- escala tem se mostrado um processo altamente conflitivo, ainda que crescentemente ancorado em mecanismos sutis de reformas, como ilustrado no emprego de benchmarks para a execução de mudanças regulatórias nos setores agrícolas de países do Sul global. Diante disto, a mesa pretende discutir a complexidade do cenário descrito a partir de perspectivas críticas, buscando lançar luz sobre as múltiplas disputas, as transformações, as contradições e as formas de contraposição aos atores e paradigmas dominantes que têm moldado os sistemas alimentares e as agendas de governança agroalimentar ao longo do século XXI.
SistemasAlimentares;GovernançaGlobal;PoderCorporativo;