Resumo: Segundo Ailton Krenak o bem viver é uma expressão que vem dos quéchuas e aymaras, “que nomeia um modo de estar na Terra, um modo de estar no mundo (…) tem a ver com a cosmovisão constituída pela vida das pessoas e de todos os outros seres que compartilham o ar com a gente, que bebem água com a gente e que pisam nessa terra junto com a gente.” (KRENAK, 2020, p. 6). Suzane Costa e Rafael Xucuru-Kariri, na apresentação da belíssima e potente obra por eles organizada, Cartas para o Bem Viver, definem o bem viver como “uma vida bonita”. Segundo eles “trata-se da definição de viver em plenitude, na língua Quéchua, que envolve estar em harmonia com a natureza e reforçar as relações comunitárias” (COSTA; XUCURU-KARIRI, 2020, p. 11). O bem viver acompanhou as formas de existência e resistência dos povos indígenas ao longo dos séculos. Compunha-se de cosmovisões que orquestravam seus mundos. Essas cosmovisões que orientavam o modo de viver, existir e se relacionar com a terra, uns com os outros e com todos os demais organismos vivos, resistiu ao longo dos séculos, mesmo com todas as tentativas de destruição empreendida pelo colonialismo e posteriormente pelo capitalismo, por meio das iniciativas do Estado Nacional. Que em nome do “progresso” tenta usurpar as melhores e mais ricas formas de existência, do bem viver, na busca desenfreada de um suposto “desenvolvimento”, que na verdade é predatório, pois não respeita a vida; a vida humana, a vida da terra e de todos os demais organismos vivos que a constituem.
O bem viver estaria portanto ligado a manutenção da ordem natural, do equilíbrio entre homens e natureza. Os homens viveriam bem “na medida em que participam da ‘boa ciência’ – a neblina vivificante – da ‘inspiração’ – as chamas sagradas, – e da ‘moderação’ – o frescor da brisa” (MELIÀ, 1990, p. 38).
A mesa que propomos pretende fazer uma (r)leitura a contrapelo dos documentos históricos, desde o período colonial, passando pelos tempos imperiais e chegando à contemporaneidade, procurando extrair das fontes os significados e sentidos do bem viver ao longo do tempo. Historicizando o seu desenvolvimento e compreendendo sua importância política no passado e no presente como uma forma singular dos povos indígenas vivenciarem e propagarem outros mundos possíveis.
Referências bibliográficas
XUCURU-KARIRI, Rafael; COSTA, Suzane Lima (org.). Cartas para o Bem Viver. Salvador: Boto-cor-de-rosa livros arte e café, 2020.
KRENAK, Ailton. Caminhos para a cultura do Bem Viver. Rio de Janeiro: Escola Parque, 2020. Disponível em http://www.culturadobemviver.org/. Acesso em 20/03/2021.
MELIÁ, Bartolomeu. A Terra Sem Mal dos Guaraní: economia e profecía. Tradução de Roberto Zwetsoh. Revista de Antropologia, n. 33, 1990, p. 33-46.
Bem viver; História Indígena; Indigenismo